Esta obra parte de um episódio e dois vocabulários. Estavamos no final do ano de 1951 quando Mário Cesariny acusa Eugénio de Andrade de plágio no então recém-lançado As Palavras Interditas. A carta que a 11-11-1951 envia a Eugénio circula também em cópia para amigos comuns. Nela, Cesariny argumenta que há semelhanças entre vários versos daquele livro e poemas seus que este mostrara a Eugénio de Andrade de visita ao Porto. A missiva tem resposta de Eugénio duas semanas depois, rebatendo ponto por ponto as acusações. Contudo, apenas cinquenta anos mais tarde a contenda seria definitivamente resolvida num abraço na chegada do surrealista ao Porto para lançar a reedição de Pena Capital.
Este é o episódio que, à sua maneira, motiva as "Mãos" mas também os "Furtos" no título deste trabalho. A outra motivação que inspira esta obra são dois conjuntos de vocabulários muito precisos: a poesia completa de Andrade e a poesia completa de Cesariny. Acontece que, à parte escaramuças, os poemas publicados pelos poetas no meio século que se seguiu a este episódio revelam uma afinidade surpreendente em escolhas lexicais comuns. Por exemplo, se atentarmos nos vinte termos com maior número de ocorrências na poesia de cada um, descobrimos que treze são comuns.
O modo Termos frequentes mostra um poema de Andrade preenchido pelos substantivos mais recorrentes na obra deste (à esquerda) e de Cesariny (à direita). Os vinte termos mais frequentes na poesia de cada um aparecem listados numa nuvem de palavras em cima (Eugénio) e em baixo (Cesariny). A cada nova geração, as palavras ativadas nas nuvens respondem a um sistema de cores que sublinha e reforça o cruzamento lexical. Azul: palavra em uso por Eugénio de Andrade. Laranja: em uso por Mário Cesariny. Roxo: em uso por ambos em simultâneo.
O modo Termos distintivos assenta num poema de Cesariny, sendo a sua matriz preenchida pelos substantivos que melhor distinguem as obras dos dois poetas, isto é, aquelas palavras de entre as mais repetidas na poesia de cada um que contudo não têm um peso equivalente na do outro.
O resultado é um gerador combinatório entre o minimalista e o maximalista que explora simultaneamente as afinidades e as dissemelhanças, as repetições e as diferenças, os lugares de contacto e de afastamento nas obras dos dois poetas.
Bruno Ministro, 2026